Anacleto foi para São Paulo tentar a sorte, seguindo o exemplo de milhares de nordestinos. Era "filho" da Cidade de Brumado, no Sudoeste baiano.
Chegando na “Cidade da Garoa" , Anacleto não podia creditar no que via. Eram tantos prédios altos, carros zunindo em seus ouvidos, ar carregado de tanta fumaça e um bando de gente que toda hora lhe dava um encontrão.
Ficou deslumbrado. Entretanto em grande cidade tem que ficar esperto se não pode acontecer algo desagrádavel. E aconteceu. Em pouco mais de 30 minutos em solo paulista “perdeu” o rádio, presente de seu pai. Tentou correr atrás do ladrão e levou uma rasteira do comparsa. Caiu em cima de um tabuleiro de um vendedor ambulante e se espatifou na calçada. Foi ajudado por um guarda municipal que ainda fez uma gracinha: ”Só podia ser baiano”!
Anacleto continuou sua caminhada “sem lenço e sem documento” (olha o Caetano de novo!) até avistar, supostamente uma conterrânea. A “baiana” do acarajé, que estava mais à frente. Se dirigiu a ela pedindo ajuda, pois chegou ali com a cara e a coragem e não conhecia ninguém. A “baiana”, que na verdade era pernambucana, começou a conversar com ele e se simpatizou com a pureza exposta na sua frente. Chamava-se Dirce e morava em Sampa há 32 anos. Tinha dois filhos mais nunca se casou. Os dois já tinham famílias. Um morava próximo a casa dela no “Bairro da Freguesia do Ó” e o outro, da Marinha, residia em Belém do Pará.
O viajante aproveitou pra mostrar os retratos de “mainha e painho”, dos irmãos e até de uma vaquinha leiteira que eles tinham. Disse que tocava gaita e sacou do instrumento e executou “O menino da Porteira” e isso deixou a pernambucana emocionada com o carinho inocente daquele rapaz. E para a surpresa da “baiana” uma quantidade de pessoas se aproximou pra ouvir e consequentemente comprar os acarajés. Ela boa negociante, logo percebeu que com a parceria daquele moço podia aumentar as vendas e ele ganhar também dinheiro para sobreviver na cidade grande.
Terminado o “expediente” ela o convidou para ajudá-la levar os “trecos” até sua casa e jantar com ela. Anacleto como estava mais perdido do que “cachorro quando cai do caminhão de mudança”, aceitou o convite e seguiram. Chegando à casa de Dirce ela lavou o tabuleiro e todos os “apetrechos” que usava diariamente, colocou a roupa usada de molho no sabão em pó e alvejante, catou o arroz, separou um bom pedaço de carne e temperou, colocou o feijão no fogo, com pé de porco, linguiça, carne seca e abriu uma cerveja. Serviu o baiano e encheu o seu copo também. Pediu licença e foi tomar um banho.
Anacleto enquanto esperava, começou a executar outras músicas na “harmônica” e assim ficou até Dirce sair do banheiro. Ele pode observar que ela era uma mulher bonita e conservada, ela tinha 52 anos de idade. Anacleto beirava os 35 anos.
Jantaram e conversaram sobre a família, os filhos dela, de quando ela tinha chegado a São Paulo e do pai de seu primeiro filho. Ela foi violentada por aquele homem e engravidou. Mas mesmo assim ela quis ter a criança. O educou e sente muito orgulho de ter um filho sargento marinheiro. O mais novo também é um excelente filho, é técnico em eletricidade e trabalha num grande firma. O pai do mais novo era casado com outra mulher e por isso também não deu certo. Quanto a ela, não quis deixar de trabalhar, é forte e tem muita vida pela frente.
Beberam três cervejas e jantaram. Também com aquela comida cheia de tempero e coisa e tal, quem resiste?
Quando terminaram com a prosa, já era mais de meia-noite. Entretanto não havia problema, no outro dia era sábado e Dirce não trabalhava.
Anacleto perguntou se a anfitriã conhecia uma pensão pra rapaz solteiro e que fosse "baratinha". Ela então ofereceu pra ele dormir aquela noite em sua casa e no outro dia procurariam um local para ele. O moço envergonhado por dormir só com uma mulher na mesma casa, não quis aceitar. Dirce então exclamou “Ora, deixa de ser bobo, não vou te agarrar homem”!
A dona da casa lhe passou uma toalha e mandou que ele fosse tomar banho e assim foi feito. Mostrou-lhe um quartinho nos fundos da casa e Anacleto sonhou como nunca tinha feito na sua existência.
O baiano pulou da cama cerca de 5:30h da manhã, preparou o café, depois de exaustivamente ter procurado pelo bule, coador, etc. Abriu a porta dos fundos que dava para um pequeno quintal e pegou uma vassoura e varreu e depois lavou o cimentado. Achou uma enxada e capinou uns “matos” que já estavam grandes e fez um monte e amarrou com uma corda jogada ao lado do tanque.
Sentou-se e ficou contemplando o céu. Dirce acordou as 7:00h e se surpreendeu com o zelo do rapaz. Preparou um cuscuz e comeram.
Ela perguntou se ele já havia se casado, se tinha filhos e ele disse que não. Era muito tímido e parece que mulher não gostava de homem assim. Mas já saiu com algumas moças, porém, só para o prazer. Depois falou isso se arrependeu e ficou com o rosto vermelho de vergonha. Dirce começou a rir e disse para ele não se preocupar com essas coisas.
Ele falou da pensão, entretanto, ela pediu para ele passar o fim de semana ali com ela como convidado, apesar do filho morar próximo, ficava muito só e sem companhia.
O baiano aceitou e ficaram conversando. A quituteira pediu pra ele tocar a gaita e perguntou se ele conhecia “Asa Branca” a reposta veio num toque sofrido e belíssimo. As lágrimas desceram dos olhos de Dirce e ela se lembrou de seu Pernambuco.
A mulher ligou o “som” e colocou um disco de “xote” e o chamou pra dançar. Imediatamente o rapaz tímido virou um “pé de valsa”. E dançaram mais uma porção de estilo. Nisso Dirce notou que Anacleto ficou excitado e por conta disso, ela ficou também. Aí é que encostaram mais.
Como diz o ditado: “Água de morro a baixo, fogo de morro acima e mulher quando quer dar, ninguém segura. E assim aconteceu, a pernambucana lascou um beijo no baiano e aí o bicho pegou. Ambos carentes e cheios de fogo ficaram na cama uma eternidade, Quando terminaram, Anacleto começou tremer e pedir desculpas por ter abusado dela. Imediatamente a “baiana” o calou com outro beijo e disse que nada de errado aconteceu e que ela adorou. Ele disse que também tinha sido bom. Foi a primeira vez que se sentiu gostado por alguém.
Havia sobrado comida da noite anterior, ela pouco fez. Sentaram-se e almoçaram. Quando o almoço acabou, Dirce perguntou se ele não gostaria de trabalhar com ela. Ela faria e venderia os acarajés, cocadas e pamonhas e ele tocaria a gaita. A freguesia iria aumentar e ela pagaria a ele uma boa comissão. Ele aceitou.
Passaram um fim de semana esplêndido e feliz. Não saíram à rua. Dançavam, namoravam transavam e curtiram muito.
Na segunda-feira saíram juntos e foram trabalhar nas vendas dos quitutes. Anacleto começou a tocar seu instrumento e começou a fazer fila para ouvintes e clientes. Dirce tinha razão, vendeu quase o triplo que normalmente ela vendia. No final do dia ela deu a ele 50 Reais e ele devolveu, dizendo, que era pra ela comprar coisa pra casa. Mais uma vez se emocionou com atitude dele. Chegando a casa, a mulher que não era de brincadeira, pediu Anacleto em casamento e perguntou se ele não se importava de se casar com uma mulher mais velha que ele. Assustado, ficou vermelho de novo. Pensou e decidiu. Pegou uma imagem de Bom Jesus da Lapa, santo protetor daquela região da Bahia e ofertou para Dirce. Rezaram e se aceitaram.
Estão juntos há 5 anos e são proprietários de uma lojinha. Lá eles vendem no balcão e por encomenda. Anacleto aprendeu dirigir e é ele que faz as entregas.
Já viajaram duas vezes para os respectivos estados de origem. Estão construindo uma casa maior em outro bairro e vão se casar no papel.
A felicidade de ambos tem o som da música.
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